quarta-feira, 8 de maio de 2013
Dilema Cósmico
Se ficar me estrepo. Se for te perco. Se te enrolar é risco. Se for direta é mágoa. Sento-me e espero o universo conspirar. Contra ou a favor?
Lenta Agonia
Uma leve dor pungente despertou em minhas têmporas e senti um torpor anestésico, lento e profundo. A vista se turvou e senti faltar-me o ar, arrítmica. O som do silêncio tomou os ouvidos e por alguns segundo só a ele se ouvia. Então, soaram as batidas descompassadas, se não morri ainda, sinto que seus lábios se desprenderam dos meus.
O vício e a cicatriz
Por todos os caminhos que seus dedos percorrem marcaram-me como ferro em brasa. Não sinto dor, não sinto prazer, não sinto angústia, nem medo. Você me estupora. Você me anestesia. Seu toque inunda-me e sinto-me translúcida e cristalina. Você refrata dentro de mim. Passa por mim, mas, deixa marcas, Marca-me como ferro em brasa. Você me anestesia e quando volto a mim ainda te sinto vibrar. Fico como se parte estranha de você houvesse ficado lá dentro. Você é como ópio. Marca-me como ferro em brasa.
Olho gordo
Muito difícil ser mulher, porque, das minhas unhas, que estavam lindas, a do fura-bolo da mão esquerda quebrou. Que depressão, tanta gente elogiou o brilho, a cor.... Isso tudo é inveja daquelas magrelas da academia. Tenho certeza.
Atrevido
Quanto disparato invadir o meu tranquilo com os seus olhos de mato não ser isso, nem aquilo, influir no meu desejo, desmanchar o que planejo, e dizer que é meu amigo.
Aceitação
Não sinto culpa por não tê-lo amado, não foi tão inóspito assim. Eu, meu bem, é que nada sabia ainda de amor, quanto mais amor sem condição! Amor de graça; amor por amor. Mas, não me culpo por não saber. Não lamento. Eu aceito. E só.
Patife 2
Profissional, seu riso manhoso é impressionante. Em dois segundos me leva a nocaute e todas as promessas vão pelo ralo. Blecaute!
O Poderoso Chefão
Patife, faz uma cara de paisagem qualquer e vem enfeitar essa noite. Coloca aquela sua camisa preta que te deixa com cara de gangster, bem baranga, que eu detesto! É que tudo está indo tão bem que preciso me lembrar de como era antes. Não é por nada, é só uma penitência para não cair em tentação.
Chave de cadeia
Rodado. Estressado. Atarantado. Cheio de grilos, filigranas e filos. Limitado em arestas, arrecifes e frestas. Esgotado. Acabado. Cheio de história, mágoas e memórias. Com a conta estourada, hipoteca marcada e até compromisso, feitiço, sumiço. Não fico por isso...
Sobrevivente
Desejo que o tempo me conceda rugas, marcas na tez, pintas nas mãos. Que os peitos caiam e a bunda murche. Espero que me cedam lugares nos ônibus e pegar a menor fila no banco. Quero pintar os cabelos por necessidade e considerar o Botox uma boa invenção. Quero que cronos pese sob meus ombros para que eu veja, todos os dias, que sobrevivi.
As uvas estão verdes
Para mim tanto faz esse seu carrão prateado e seu jeitão de abonado, um telefone cheio de cores e sons. Não me interessa o preço dessa sua camisa, o lugar para onde você pode viajar ou o quanto pretende gastar. Juro que tanto fazia! Eu suportaria a playboyzada e toda a abobrinhada. Sinceramente, não estou nem aí, contanto que você ficasse bem aqui. Calado. Do meu lado. E fingisse, mas, com convicção, que, nos próximos quinze minutos é de verdade.
Orgulho besta
Obrigada, eu não! Eu é que não dou meu braço a torcer, já está doendo o suficiente com o braço no lugar.
Lúdica
O que eu mais gosto, com meus poemas, é de mostrá-los para algum passante que por acaso tenha passado pela minha vida. Só para vê-lo, com aquela cara pensante... Será que isso é sobre mim? Mas, não se inquiete, não se espante, eu lhe asseguro que você não foi tão importante!
A perspectiva de quem está de baixo
Plataforma é onde tudo que se destaca fica. Alto e fórmico e platônico de fato. Do outro lado, quem fica, admira de baixo. Baixo e disfórmico, mas, ainda, platônico de fato. Olhar o que está no alto é mais divertido que ser olhada. Imaginar o que poderia ser se tudo estivesse nivelado é divertido também. E perigoso. E platônico de fato.
Soneto para minha bonequinha
Olhinhos vagos e curiosos me olham. E olham para boneca no pequeno colo. E olham para mim de novo e choram. Chora porque a boneca não responde. Boca de pano que não pode falar. Chora por chorar, sem porque, sem onde. Chora sofrida pela boca muda de pano e linha que as imaginárias palavras trava. Quisera eu que tudo ruim fosse só linha de carretel, que eu cortava e acabava. E então, pequena, você dormia com os anjos e apenas sonhava.
Assentamento
Tudo me lembra. Tudo. Uma ilustração. Um saite que acesso. Uma música na rua. Relance na televisão. Eu sei que isso é só empatia, mas, parece materialização e é absolutamente invasivo. Não, é uma invasão!
Distração
Eu me distraio entre o bitis e bites divago em cada letrinha, cada caracter. Não penso no que as palavrinhas podem dar, não penso no poder das frases que formo. Só me distraio e passo tempo enquanto as palavras sozinhas crescem... frases... períodos... parágrafos... textos... Da minha distração nasce um tsunami de palavras vivas, incontroláveis e incandescentes. Mas, juro que isso só aconteceu porque eu estava distraída.
Maquiagem
Estou apenas fingindo a maior parte do tempo. Espero silente que a inércia, finalmente, se solidifique. Fico apenas representando uma peça sem roteiro, esperançosa de que ao menos eu mesma saia convencida. Eu apenas camuflo o que há de verdade nisso. Tomara que nada precise vir à tona.
Receio
Perigoso, melhor se cuidar. Uma faísca e pode se apaixonar.
Amistoso, melhor não começar.
Finalizar antes do início o que se pode evitar.
Cueca Vermelha
Difamar às vezes é divertido. Distrai a alma, engraça o espírito e serve, também, de pequena vingança particular. Troça de mesquinharia. Falar um pouco mal, destilar certo veneno. Afinal de contas ele merece... Aparecer com esta indumentária, na primeira vez, é coisa de dar urticária; é motivo para uma quase difamação.
Tic-tac
Como podem oito horas parecer oitenta. Esse tic-tac, sem ritmo, minha pouca paciência não aguenta. Quando eu vou poder voltar para o que interessa, que é estar com você muitas horas em pressa?
Isso é loucura, isso é uma imprudência! O que há comigo: um lapso de consciência? Dizem que a paixão é uma droga pesada, poderosa alteração da percepção. Isso é impossível, isso não tem ciência! E o que faço agora com essa ingerência? Dizem que baixar a guarda é um grande pecado que abre os portões da alma, libera os demônios cerrados. E agora o que será de mim se eu for arrastada pra esse inferno de novo?
Inventário
Eu esperei tanto por nada, migalhas, que me atenderiam, não tive. Sequer faíscas da brasa tive. O final da taça ou o beijo de despedida tive. Ganhei esse silêncio, o vazio, as horas passando e os dias se entrelaçando. E, então, eu tive a certeza de que esperei tanto por nada.
Inventário com anamnese
Tenho medo da morte, mas, isso, todo mortal tem.
Tenho um joelho ferido de antigas batalhas, que crepita quando pedalo muito.
Tenho ferimentos novos de batalhas recentes, que são visíveis e invisíveis. Por causa disso, fui mandada ao médico de problemas, eu fui, por causa da obediência. O médico de problemas examinou e disse que os ferimentos visíveis eram por causa dos invisíveis: aparentemente eu fui diagnosticada. O médico de problemas perguntou o que eu vou fazer para fechar a ferida invisível. Eu não respondi. Mas tenho resposta. Eu tomo muitas garrafas de Chardonnay.
Sem feira
Ele ligou hoje e ficou pedindo pra eu voltar. Hoje é sábado e foi só por isso ele ligou. Ninguém pede pra voltar segunda-feira. Mas, em dia que não tem feira, quem faz a feira faz falta.
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